Quem passou por aqui

sábado, 6 de junho de 2009

Sem título

Enquanto dormem, cessa a morfina:
os anestésicos ainda são necessários;
a vigília continua no sono.
Não tem entranhas. Não têm sentido.
O quadro clínico não corresponde mais.
O desvario de manhã, chamando por Deus,
“Jesus, Jesus”, não significa mais.

A esperança é só nossa,
a ridícula esperança!

Ela morria:
sem a fome, sem estômago, intestino;
sem a sede, sem rim, nem fala;
sem olhos, que a vista olhava perdida,
cegos do silêncio e dos remédios.
Os aparelhos gritam à nossa angústia.

Enquanto isso acontecia,
aconteciam outras coisas no mundo...


Luiz Augusto Rocha

Considerações

Tem coisas que só a poesia pode dizer.

Nela, o mundo se abre,
a ingenuidade ganha força.

Ao ver uma palavra
em seu sentido oposto,
fala-se de ironia.
Fora do poema...

No gauchismo do poeta,
Sete faces.
Na verdade,
quantas feições há
para quantas caras se apresentem
sorridentes, maledicentes,
estúpidas, odiosas,
falantes e parasitárias,
contentes pela mediocridade.

As palavras no poema
– estupefatas, aturdidas –
não entendem como a realidade
pode ser mais absurda
do que as fábulas.


Luiz Augusto Rocha.