Quem passou por aqui

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Para escrever

Elimine os adjetivos,
cuidado com os verbos em desuso,
nada de substantivos prolixos,
clichês estão proibidos.

Palavras soltas, esqueça:
o Dadaísmo é démodé.

Escreva o máximo! Com o mínimo...

Abrace seu rancor parecendo blasé
(ignorando que é pura falta de educação)

Volte novamente às classes
gramaticais, é claro.

Orações coordenadas
só se subordinadas à curtição.

Compartilhe, desde que
paguem os direitos autorais.

Divague sobre o nada
mostrando ser excepcional
no começo, meio e fim.

Em suma, escreva por duas ou três horas
antes que acabe o vínculo.

Por fim, esqueça esta nossa precariedade.

“– Caramba!
Como é difícil fazer poesia”
Vão dizer os poetas.

Mas, o Poeta, mesmo,
há de se omitir sobre o tema
enquanto sonha a vida.

Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A visita

Ainda hoje vou à casa
de velhos amigos.
Quero encontrá-los sorrindo
e de abraços abertos.

Vamos rir tanto
de doer a barriga!
Conversar bastante
até alta madrugada.

Ficaremos em silêncio
durante alguns minutos.
Até que alguém dirá:
um anjo passou...

Crendices serão debatidas
e soluções para o mundo,
economia, política e poesia,
entre risos e suspiros.

Antes de terminar a visita,
um novo silêncio na garganta
poderá nos lembrar
que estará amanhecendo.

Então, verei meus olhos
mirando o futuro
destes olhos de hoje
lembrando os antigos.

E voltando para casa,
verei que as horas passaram
neste meu relógio tão pesado
e, enfim, haverá um sorriso.


Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Poeminha receita

Pegue umas palavras.
Disseque-as, uma a uma:
Eis uma poesia morta!

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A caça

Primeiramente, a caça se esconde.
Se impossível, esgueira-se.
Quase acuada, foge.
Entre raízes, o disfarce.

A caça não ataca.
Ela age no impulso da fuga
ou faz uma simulação qualquer.
Mas, não ataca.

Salta-lhe o coração,
os olhos esbugalham,
as unhas latejam,
e a respiração prende.

O que a caça realmente faz
não é fugir, nem esgueirar-se,
muito menos fingir
ou andar pela noite.

O que a caça tem não é nada,
não é instinto animal,
nem raciocínio complexo.
A caça só tem medo.

Luiz Augusto Rocha

Poema inútil

Uns grandes versos bobos!
Era só isso que fazia escrever,
Coisas bobocas, simples. Geniais?
Palavras lindamente articuladas?
Que pudessem salvar o mundo...

Como eram exageradas as palavras!
E eram complexas as construções?
Uma festa maravilhosa e rocambolesca!
Com direito a metrificação. Eu acho.
Como o bobo era eu...

O mundo não mudou pela poesia.
Acho que nem ligam mais para poesia.
Há muito trabalho para se fazer!
Coisas bem melhores a se apreciar.
Nem eu mudei pela poesia...

Abandonei a métrica.
Deixei as rimas de lado.
Intercaladas entre o desdém
e a inutilidade da procura.
E o tempo pareceu-me o mesmo...

Espero que isso não seja um achismo.

Luiz Augusto Rocha

Poema conformado

E essa coisa,
fica assim, fica assado.
A gente queima o que pode
e continua assim.

Fuma um cigarro, bebe uma cerveja,
fuma outro, bebe mais outra.
E continua nessa toada
contínua e sem graça.

Bate a tristeza,
bate a angústia,
bate na cara,
bate o telefone.

Quanto mais eu procuro
meus versos mais íntimos,
mais ao inverso caminho.
E bebe, fuma, fala... Cala.

A vida deveria vir
com o verso escrito.
Não ela toda, só uns dias.
Um verso-bula: explicativo.

No fim das contas,
é tudo igual.
Um emaranhado de palavras
severamente piegas.

Luiz Augusto Rocha