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sábado, 26 de março de 2011

Viajem!

Adeus aos que nunca foram.
Adeus aos que partiram!
Adeus aos saudosistas?
Adeus àquele deus nosso.

Que saudade sinto
do que vi um dia...
Que saudade tenho
do que não conversamos.

De quanta saudade vivo!
Quantos momentos vivos,
quanta rima perdida,
quanta conversa não dita.

Enfim, meus caros,
quão claros os caminhos,
quantos destinos
fizeram-nos meninos.

Meu caro, que fizemos de nós?
O que estamos fazendo?
Quantas perguntas existem?
Sem respostas...

Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 17 de março de 2011

Observações de um forasteiro

Nesta terra movediça,
abrem-se fendas no chão,
por onde saem cavaleiros.

Arautos de si mesmos,
contentes da condição
precária e medíocre.

Arrogam-se o direito inalienável
de comer o o que sai da terra,
de beber a água do rio.

Querem convencer a todos
de que o esterco não fede
e que tudo vai bem.

E vão às suas igrejas –
fervorosos cristãos –
para agradecer suas bênçãos.

E tudo continua fedendo.
Passam perfumes,
mas, sabemos que continua fedendo.

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 2 de março de 2011

Mundo

Mundo
mundo das coisas,
mundo das palavras.
Mundo.
Eu...
Mudo.

Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Conversinha

Cadê a menina
que vi aqui?
Cadê a moça
que conversei?
Cadê?


Onde fui parar?
Como nada tivesse visto
e como nada conhecesse,
fiz de mim essa nossa prosa:
conversinha de rua.


Meu bem, diga aqui
o que podemos conversar,
além do entre a manhã
e as manhas nossas,
idas no entardecer?


Pois é,
a poesia vai mais,
vai bem, bem mais,
bem  muito mais além.
Além de que, meu bem?


Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Poema da saudade

Se em prosa
as palavras desarticulam,
em versos
fazem arte,
como a arte
de uma criança arteira.

E se os versos
dão ao bom-dia
um bom dia cantado,
rodemos igual a meninada
em volta da árvore.

Se tem tanta saudade,
que choremos de alegria,
que a saudade não passa.

Até porque
nossos velhos versos
saudam a saudade
com a plena certeza
de que tudo, tudo,
valeu a pena.

Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Quase-me

Fui quase um herói de guerra.
Estive quase perto do presidente.
Tive quase a grande sorte da loteria.
Escrevi quase um poema eterno,
mas que perdeu-se de si.

O que me angustia mesmo
é esquecer-me no quase,
dançando nos olhos
dos olhos alheios.

Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Reveio o Reveillon

Eu não quero a simplicidade
de um ano bom e feliz.
Eu quero a complicação
de um tempo complicado.

Eu não quero a verdade
de um dia comum.
Eu quero a ilusão
de fogos de artifício.

Eu não quero a sobriedade
de um mecânico Feliz-Data.
Eu quero o exagero
de sempre recomeçar.

Eu não quero o Reveillon
das crianças obedientes.
Eu quero, que ele venha
em mil alegrias!


Luiz Augusto Rocha, para Letícia.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Prazeres

O que faz mal na vida?
O álcool, o cigarro?
A maconha e o aborto?

A opressão velada...
A ditadura escancarada.

O que realmente mata
é a morte diária
do tempo e da esperança.

O que realmente resolve
é cachaça com arsênico.

Luiz Augusto Rocha

domingo, 19 de dezembro de 2010

Chuva de agora

Não é meia-noite.
Não caem gotas.
Nem o calor é insuportável.

Choveu hoje,
nada sério ou
fora do normal.

É tempo de chuvas:
dia sim, dia também,
até que venha a seca.

Chuva,
exercício diário
de retorno, de ciclo.

Não transpiro umidade,
não respiro a água,
não vivo na chuva
(Só embaixo dela!).

Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Artistas

Os olhos dele,
assim como os dela,
olham-me.

Os primeiros são tristes,
muito tristes,
profundamente tristes;

Já nela, vê-se melancolia,
de nove e meia da noite,
sob a sobrancelha.

Eles me encenam a dor
que nem eles sentem
e eu só imagino.

Luiz Augusto Rocha

Entendimentos

Eu não entendia
o que era tirar leite de pedra.

Para mim, leite só se tirava
da vaca, da cabra, da caixa!

O que eu entendia
Me entediava...

Luiz Augusto Rocha

domingo, 25 de julho de 2010

Saber andar

Quando menino,
gostava de andar no meio-fio.
A mãe sempre dizia,
– Não faça isso, menino!

Mas, que mania estranha...
Sempre entre a calçada e a rua.

Até o dia, grandioso dia,
em que há de andar no acostamento,
entre o terraço do edíficio
e a última linha do abismo.

Luiz Augusto Rocha

domingo, 27 de junho de 2010

Animais de estimação...

Já quis ter um elefante.
Nunca tive.

Só cachorros.
Um gato, certa vez.

De todos os animais,
queria mesmo o elefante.

Hoje em dia, não tem
nem gato nem cachorro. 

Hoje eu só convivo
com os animais ruins da rua...


Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Embaixo da cama

Às vezes, ficar embaixo da cama é confortável.
Mas, se ficar embaixo da cama não for confortável,
pode ser um esconderijo.

Já não sendo mais um esconderijo,
que estar embaixo da cama
seja uma ilusão de equilíbrio.

Queria não sair
de entre o chão rasgado
e o teto em treliças de teia de aranhas.

E o estrado e o colchão
têm dito e dito e dito,
de cima, onde eu estou.

O que me vale é não conversar,
não falar, não ouvir ninguém.
E como é horrível...

Luiz Augusto Rocha

domingo, 30 de maio de 2010

Título tem ponto de interrogação?

Porque a cabeça da matéria já lhes é suficiente...

O que eles vão fazer
em meio ao processo catártico?

A quem confiar os segredos mais íntimos,
se os religiosos não têm orações em 140 toques?

Como eles podem
ainda suportar o fedor?

Quando poderão novamente rejeitar a gente,
dizendo-nos corja?

Onde eles vão achar tempo para conversarem em francês
e deleitarem-se com biscoitos amanteigados?


Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Ensaio de um clichê

Acendi o cigarro
numa das velas ao pé do morto.

Pedi a cerveja
no bar de frente pro velório.

Bati o fósforo
no ritmo da fita amarela.

Olhei o defunto
no fundo cheio do copo.

Luiz Augusto Rocha

domingo, 18 de abril de 2010

Vida intensa

Uma vida só
para três empregos,
cinco projetos sociais,
dez cursos,
– de inglês à interpretação dos barulhos
das baleias jubarte.

Vamos conversar um pouco!
não há tempo,
não tenho tempo,
agora não!
Preciso viver.

Posso ligar, dia desses?
Pode, dia 30 do mês que vem,
às seis e quarenta e cinco da manhã.
Fechado! Eu ligo, então...

Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 23 de março de 2010

Ocasião de ouvir

Rápidos e rasteiros.
Repetitivos, reacionários.
Ridículos... Ríspidos.
Robóticos rótulos.
Ruminando...

Mal sabem que o sexo
não é uma corrida de gente nua;

Que o trabalho
é bem mais que um diploma;

A música
tampouco é repetição - ou só isso.

Rápidos e repetitivos:
tão rápidos e repetitivos,
mas tão rápidos e repetitivos,
que apenas se ouve essa batida,
o rap-rep-rap-rep-rap-rep...


Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Do sempre e o daqui para a frente

Eu não vi.
Falaram para mim.

A mulher em cima da mesa
de sinuca deitada e silenciosa.

também tem aquela menina
apanhando sozinha

O dono do bar já arrumou outra
depois que ela morreu.

A menina já não apanha
nem está chorando.

O que veremos daqui para a frente?

Luiz Augusto Rocha

domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu, lírico?

Eu viajo e eu canto,
sem sair do lugar,
sem saber cantar,

Eu sou ninguém,
quase sempre feliz,
com pingos azuis no nariz

Sou prosa e rima,
em versos da terra,
da cidade e da serra,

Sou estranho e fugaz,
não tenho as paixões
comuns aos ladrões,

Meu lirismo
é angústia do poema, a morte,
que nem mesmo a sorte

livra-me (ao prolongar o poema) do meu grande cinismo 

Luiz Augusto Rocha