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Enquanto dormem, cessa a morfina:
os anestésicos ainda são necessários;
a vigília continua no sono.
Não tem entranhas. Não têm sentido.
O quadro clínico não corresponde mais.
O desvario de manhã, chamando por Deus,
“Jesus, Jesus”, não significa mais.
A esperança é só nossa,
a ridícula esperança!
Ela morria:
sem a fome, sem estômago, intestino;
sem a sede, sem rim, nem fala;
sem olhos, que a vista olhava perdida,
cegos do silêncio e dos remédios.
Os aparelhos gritam à nossa angústia.
Enquanto isso acontecia,
aconteciam outras coisas no mundo...
Luiz Augusto Rocha
Tem coisas que só a poesia pode dizer.
Nela, o mundo se abre,
a ingenuidade ganha força.
Ao ver uma palavra
em seu sentido oposto,
fala-se de ironia.
Fora do poema...
No gauchismo do poeta,
Sete faces.
Na verdade,
quantas feições há
para quantas caras se apresentem
sorridentes, maledicentes,
estúpidas, odiosas,
falantes e parasitárias,
contentes pela mediocridade.
As palavras no poema
– estupefatas, aturdidas –
não entendem como a realidade
pode ser mais absurda
do que as fábulas.
Luiz Augusto Rocha.
Aqui é assim:
Entre quatro paredes, o quarto.
Entre o quarto e o mundo, a rede.
Esqueceram que ela é menina.
Qual o problema, se ele também?
Tem gente na mira.
Tem arma na rima.
Cristo salva todo mundo.
Basta achar normal.
Ninguém tem fome.
Ninguém tem nome.
A terra não dá nada.
Ele não provê.
Não existe conto de fada,
a não ser na tevê.
Luiz Augusto Rocha