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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Reveio o Reveillon

Eu não quero a simplicidade
de um ano bom e feliz.
Eu quero a complicação
de um tempo complicado.

Eu não quero a verdade
de um dia comum.
Eu quero a ilusão
de fogos de artifício.

Eu não quero a sobriedade
de um mecânico Feliz-Data.
Eu quero o exagero
de sempre recomeçar.

Eu não quero o Reveillon
das crianças obedientes.
Eu quero, que ele venha
em mil alegrias!


Luiz Augusto Rocha, para Letícia.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Prazeres

O que faz mal na vida?
O álcool, o cigarro?
A maconha e o aborto?

A opressão velada...
A ditadura escancarada.

O que realmente mata
é a morte diária
do tempo e da esperança.

O que realmente resolve
é cachaça com arsênico.

Luiz Augusto Rocha

domingo, 19 de dezembro de 2010

Chuva de agora

Não é meia-noite.
Não caem gotas.
Nem o calor é insuportável.

Choveu hoje,
nada sério ou
fora do normal.

É tempo de chuvas:
dia sim, dia também,
até que venha a seca.

Chuva,
exercício diário
de retorno, de ciclo.

Não transpiro umidade,
não respiro a água,
não vivo na chuva
(Só embaixo dela!).

Luiz Augusto Rocha

sábado, 18 de dezembro de 2010

A foto falada

Se uma foto diz mais que mil palavras,
ainda assim, prefiro-as.
Elas me trazem mais de mil fotografias.

Uma ou outra em especial,
pedaço de biografia,
pedaços.

Mas, hoje são outras prioridades.
Mesmo sem saber quais são,
tenho-as.

Ando conversando menos,
falado um tanto mais,
visto bastante.

Mas, só a palavra, cada letra dela,
seleciona a foto mais, mais
densa.

E é essa densidade explodida,
dispersa em prioridades,
só aquela foto.


Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Artistas

Os olhos dele,
assim como os dela,
olham-me.

Os primeiros são tristes,
muito tristes,
profundamente tristes;

Já nela, vê-se melancolia,
de nove e meia da noite,
sob a sobrancelha.

Eles me encenam a dor
que nem eles sentem
e eu só imagino.

Luiz Augusto Rocha

Entendimentos

Eu não entendia
o que era tirar leite de pedra.

Para mim, leite só se tirava
da vaca, da cabra, da caixa!

O que eu entendia
Me entediava...

Luiz Augusto Rocha

domingo, 25 de julho de 2010

Saber andar

Quando menino,
gostava de andar no meio-fio.
A mãe sempre dizia,
– Não faça isso, menino!

Mas, que mania estranha...
Sempre entre a calçada e a rua.

Até o dia, grandioso dia,
em que há de andar no acostamento,
entre o terraço do edíficio
e a última linha do abismo.

Luiz Augusto Rocha

domingo, 27 de junho de 2010

Animais de estimação...

Já quis ter um elefante.
Nunca tive.

Só cachorros.
Um gato, certa vez.

De todos os animais,
queria mesmo o elefante.

Hoje em dia, não tem
nem gato nem cachorro. 

Hoje eu só convivo
com os animais ruins da rua...


Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Embaixo da cama

Às vezes, ficar embaixo da cama é confortável.
Mas, se ficar embaixo da cama não for confortável,
pode ser um esconderijo.

Já não sendo mais um esconderijo,
que estar embaixo da cama
seja uma ilusão de equilíbrio.

Queria não sair
de entre o chão rasgado
e o teto em treliças de teia de aranhas.

E o estrado e o colchão
têm dito e dito e dito,
de cima, onde eu estou.

O que me vale é não conversar,
não falar, não ouvir ninguém.
E como é horrível...

Luiz Augusto Rocha

domingo, 30 de maio de 2010

Título tem ponto de interrogação?

Porque a cabeça da matéria já lhes é suficiente...

O que eles vão fazer
em meio ao processo catártico?

A quem confiar os segredos mais íntimos,
se os religiosos não têm orações em 140 toques?

Como eles podem
ainda suportar o fedor?

Quando poderão novamente rejeitar a gente,
dizendo-nos corja?

Onde eles vão achar tempo para conversarem em francês
e deleitarem-se com biscoitos amanteigados?


Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Ensaio de um clichê

Acendi o cigarro
numa das velas ao pé do morto.

Pedi a cerveja
no bar de frente pro velório.

Bati o fósforo
no ritmo da fita amarela.

Olhei o defunto
no fundo cheio do copo.

Luiz Augusto Rocha

domingo, 18 de abril de 2010

Vida intensa

Uma vida só
para três empregos,
cinco projetos sociais,
dez cursos,
– de inglês à interpretação dos barulhos
das baleias jubarte.

Vamos conversar um pouco!
não há tempo,
não tenho tempo,
agora não!
Preciso viver.

Posso ligar, dia desses?
Pode, dia 30 do mês que vem,
às seis e quarenta e cinco da manhã.
Fechado! Eu ligo, então...

Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 23 de março de 2010

Ocasião de ouvir

Rápidos e rasteiros.
Repetitivos, reacionários.
Ridículos... Ríspidos.
Robóticos rótulos.
Ruminando...

Mal sabem que o sexo
não é uma corrida de gente nua;

Que o trabalho
é bem mais que um diploma;

A música
tampouco é repetição - ou só isso.

Rápidos e repetitivos:
tão rápidos e repetitivos,
mas tão rápidos e repetitivos,
que apenas se ouve essa batida,
o rap-rep-rap-rep-rap-rep...


Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Do sempre e o daqui para a frente

Eu não vi.
Falaram para mim.

A mulher em cima da mesa
de sinuca deitada e silenciosa.

também tem aquela menina
apanhando sozinha

O dono do bar já arrumou outra
depois que ela morreu.

A menina já não apanha
nem está chorando.

O que veremos daqui para a frente?

Luiz Augusto Rocha

domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu, lírico?

Eu viajo e eu canto,
sem sair do lugar,
sem saber cantar,

Eu sou ninguém,
quase sempre feliz,
com pingos azuis no nariz

Sou prosa e rima,
em versos da terra,
da cidade e da serra,

Sou estranho e fugaz,
não tenho as paixões
comuns aos ladrões,

Meu lirismo
é angústia do poema, a morte,
que nem mesmo a sorte

livra-me (ao prolongar o poema) do meu grande cinismo 

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

as descobertas

quando descobri o átomo
, tudo a ser descoberto
, sol, lua
, estrelas não só iluminavam a janela.

quando descobri nem tudo a ser descoberto
, tempo não é rápido como imaginação
, consenti pacientemente
, o nem mais e nem menos: medianeira.

quando descobri poder falar
com a laranja, com o sabiá e que as pessoas gritam e sussurram
conforme eu queria nos meus sete anos
, que bom...


Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Das coisas que voam

Fosse como fosse...
Dom Silencioso.

Nas serras ou na várzea,
sempre diplomata do ar.

O dom de conversar em silêncio,
com todas as figuras silenciosas.

Das lagartas, via-as comendo
e comendo e matutando.

Quando forjava seu cantinho,
diplomava-se o menino.

Por isso que o diplomata matuto
também bate as asas de volta.

E vai voando livre e silencioso...

Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

refeição de viagem de volta

nas primeiras vezes quando eu chegava
sempre tinha quiabo no frango e polenta
além daquela bananada de colher

depois rareou-se a bananada
falta da fruta de açúcar ou de lembrar
até que já não tinha mais doce

depois duns dois anos nessas viagens
a polenta também foi deixando de aparecer
e o frango mais difícil de encontrar

mas ainda assim tinha o quiabo
verdíssimo quentíssimo
gostoso a danar

até o dia que também não teve quiabo
porque não tinha quem preparasse
...

assim como um poeta em concordata
pedindo auxílio de versos
peço à lembrança que eu não me esqueça
(daquela composição de mesa e saudade)

Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

viração

ainda ontem não me suicidei
hoje não perco a novela
capítulo importante
eueueueueueueu
me vejo
ali

...


amanhã
eu me mato
porque renasco
um outro ainda hoje
melhor agora juntos aqui

Luiz Augusto Rocha

domingo, 22 de novembro de 2009

Sem palavras

Eu não sei falar a língua dos outros.
Nem falo as língua dos bichos, das plantas.
Acho até que nem sei falar direito.

Eu quero andar mil quadras,
atirar mil pedras,
e fazer tudo enquanto o mundo muda.

Os santos de casa dormem
e o mundo muda e a gente muda
pros santos não acordarem!

Luiz Augusto Rocha