Quem passou por aqui





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Do sempre e o daqui para a frente

Eu não vi.
Falaram para mim.

A mulher em cima da mesa
de sinuca deitada e silenciosa.

também tem aquela menina
apanhando sozinha

O dono do bar já arrumou outra
depois que ela morreu.

A menina já não apanha
nem está chorando.

O que veremos daqui para a frente?

Luiz Augusto Rocha

domingo, 24 de janeiro de 2010

Eu, lírico?

Eu viajo e eu canto,
sem sair do lugar,
sem saber cantar,

Eu sou ninguém,
quase sempre feliz,
com pingos azuis no nariz

Sou prosa e rima,
em versos da terra,
da cidade e da serra,

Sou estranho e fugaz,
não tenho as paixões
comuns aos ladrões,

Meu lirismo
é angústia do poema, a morte,
que nem mesmo a sorte

livra-me (ao prolongar o poema) do meu grande cinismo 

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

as descobertas

quando descobri o átomo
, tudo a ser descoberto
, sol, lua
, estrelas não só iluminavam a janela.

quando descobri nem tudo a ser descoberto
, tempo não é rápido como imaginação
, consenti pacientemente
, o nem mais e nem menos: medianeira.

quando descobri poder falar
com a laranja, com o sabiá e que as pessoas gritam e sussurram
conforme eu queria nos meus sete anos
, que bom...


Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Das coisas que voam

Fosse como fosse...
Dom Silencioso.

Nas serras ou na várzea,
sempre diplomata do ar.

O dom de conversar em silêncio,
com todas as figuras silenciosas.

Das lagartas, via-as comendo
e comendo e matutando.

Quando forjava seu cantinho,
diplomava-se o menino.

Por isso que o diplomata matuto
também bate as asas de volta.

E vai voando livre e silencioso...

Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

refeição de viagem de volta

nas primeiras vezes quando eu chegava
sempre tinha quiabo no frango e polenta
além daquela bananada de colher

depois rareou-se a bananada
falta da fruta de açúcar ou de lembrar
até que já não tinha mais doce

depois duns dois anos nessas viagens
a polenta também foi deixando de aparecer
e o frango mais difícil de encontrar

mas ainda assim tinha o quiabo
verdíssimo quentíssimo
gostoso a danar

até o dia que também não teve quiabo
porque não tinha quem preparasse
...

assim como um poeta em concordata
pedindo auxílio de versos
peço à lembrança que eu não me esqueça
(daquela composição de mesa e saudade)

Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

viração

ainda ontem não me suicidei
hoje não perco a novela
capítulo importante
eueueueueueueu
me vejo
ali

...


amanhã
eu me mato
porque renasco
um outro ainda hoje
melhor agora juntos aqui

Luiz Augusto Rocha

domingo, 22 de novembro de 2009

Sem palavras

Eu não sei falar a língua dos outros.
Nem falo as língua dos bichos, das plantas.
Acho até que nem sei falar direito.

Eu quero andar mil quadras,
atirar mil pedras,
e fazer tudo enquanto o mundo muda.

Os santos de casa dormem
e o mundo muda e a gente muda
pros santos não acordarem!

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

De vodca e goiaba

Quando me perguntam como vou,
como tenho passado,
como está o meu estado,

eu bem que tento responder:
“Às vezes sólido, às vezes sério;
Quando não etéreo, quando sim etílico”.

Por obra do hábito,
o que sempre digo
é que vou bem, vou bem...

E sem saber do meu estado,
vou genérico no país,
preciso na cidade.

Que mal tem, em forjar tantos estados,
se a minha cidade não me quer bem?
Minha nação carrego no peito.

E, por isso, da próxima vez
que me perguntarem como estou,
vou dizer na lata: “Não vou. Vamos?”



Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Norte

Às quatro e quinze da tarde de hoje,
eu parei por um segundo.
Senti cada gota de suor,
cada batida do coração,
cada passarinho cantando eu ouvi.
Nesse instante eu pensei...
E disse, chega!

Hoje, eu me dei a minha alforria.
Com tudo a que tenho direito,
a liberdade de sonhar,
a possibilidade de agir.
Conscientemente, eu fiz a minha lei áurea.
derrubei a minha prisão,
soltei os meus bandidos inocentes.

Mas, estou ciente das consequências.
Eu sei que, agora,
estou na vala dos comuns.
Estou sem a perspectiva cruel
de uma vida entre as bitolas do trem...
E como isso é bom!

Luiz Augusto Rocha

sábado, 22 de agosto de 2009

O sol e a brisa

Em determinado momento do dia,
a brisa passa debaixo do sol que torra.
Poderia ser o inverso:
o sol torra, mas, a brisa passa...

Não há porque desistir,
se, cá embaixo,
a brisa continua passando,
mesmo com o sol que torra.

Entre o sol e a brisa,
não existe uma ponte de concreto
que ligue um lado ao outro.
Nós estamos entre os dois...

O que mais arde no sol
é o suor todo dia suado;
é a pele queimada que,
já à noite, cozinha o sonho.

O que o sol tenta matar
é a umidade que transborda
dos nossos corpos todos os dias,
a contragosto de seu abrasamento...

É o suor ardido diante do sol
que se encontra com a brisa.
Sempre, às duas da tarde,
da planta do pé à ponta do cabelo.

E a sensação que o vento provoca,
dançando nas costas, na nuca;
enfrentando os olhos, segurando o peito.
Quase esquecemos do sol...

Entre os dois pontos desse lugar,
(no instante do encontro de brisa e sol)
o mundo deixa de girar um segundo.
E eu sei que estou vivo!


Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Agosto

tempo oco, tempo
preso
Tempo
mais que querer viver
querer querendo a fantasia de vida

a razão última é querer viver
mas, a razão primeira é querer viver

Tempo sem tempo para nada
preenchido, absorvido, interrompido
importante
rural, industrial, serviçal
terceirizado

– e o Tempo vai se distraindo por aí...
(enquanto o tempo é ocado pelo nosso tempo)
(enquanto ponto a ponto o tempo é batido)
(enquanto se consome)
(enquanto)
– ...

Luiz Augusto Rocha

sábado, 6 de junho de 2009

Sem título

Enquanto dormem, cessa a morfina:
os anestésicos ainda são necessários;
a vigília continua no sono.
Não tem entranhas. Não têm sentido.
O quadro clínico não corresponde mais.
O desvario de manhã, chamando por Deus,
“Jesus, Jesus”, não significa mais.

A esperança é só nossa,
a ridícula esperança!

Ela morria:
sem a fome, sem estômago, intestino;
sem a sede, sem rim, nem fala;
sem olhos, que a vista olhava perdida,
cegos do silêncio e dos remédios.
Os aparelhos gritam à nossa angústia.

Enquanto isso acontecia,
aconteciam outras coisas no mundo...


Luiz Augusto Rocha

Considerações

Tem coisas que só a poesia pode dizer.

Nela, o mundo se abre,
a ingenuidade ganha força.

Ao ver uma palavra
em seu sentido oposto,
fala-se de ironia.
Fora do poema...

No gauchismo do poeta,
Sete faces.
Na verdade,
quantas feições há
para quantas caras se apresentem
sorridentes, maledicentes,
estúpidas, odiosas,
falantes e parasitárias,
contentes pela mediocridade.

As palavras no poema
– estupefatas, aturdidas –
não entendem como a realidade
pode ser mais absurda
do que as fábulas.


Luiz Augusto Rocha.

domingo, 12 de abril de 2009

Coisas do interior ou de qualquer lugar

Aqui é assim:

Entre quatro paredes, o quarto.
Entre o quarto e o mundo, a rede.

Esqueceram que ela é menina.
Qual o problema, se ele também?

Tem gente na mira.
Tem arma na rima.

Cristo salva todo mundo.
Basta achar normal.

Ninguém tem fome.
Ninguém tem nome.

A terra não dá nada.
Ele não provê.

Não existe conto de fada,
a não ser na tevê.



Luiz Augusto Rocha