Quem passou por aqui





sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Da escrita


Um ponto encerra a discussão.
Trema com dois pontos.
Com três, deixe no ar...

Apresente-se novamente com dois:
– Alguma dúvida?
Surpreenda-me com um “não”!

Não faça curvas entre vírgulas,
largue esse caderno
e vá ver o céu.

Luiz Augusto Rocha.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Diálogo onírico


– Que sonho mais estranho!
Caindo, caindo, caindo...
Não era sonho, era a vida.

– Que sonho mais bonito!
Rindo, sorrindo, partindo...
Estava indo ver a vida.

– Que sonho tão real!
Quedas, sorrisos, partidas...
Do que mesmo falávamos?

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Poeminha esperançoso

Não nasci para os romances,
nem os escritos nem os vividos.
Quando é que a gente nasce?


Luiz Augusto Rocha

Poema inconcluso

Queria a ilusão dos heróis ou
a verdade estampada dos talentosos.
Sobrou-me um coração angustiado.

Quis a fama e o anonimato,
o conforto de abraços piegas
desmontando clichês.

O que mais resta dizer
aos poucos ouvintes
além da morte (prematura) da expectativa?


Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Para escrever

Elimine os adjetivos,
cuidado com os verbos em desuso,
nada de substantivos prolixos,
clichês estão proibidos.

Palavras soltas, esqueça:
o Dadaísmo é démodé.

Escreva o máximo! Com o mínimo...

Abrace seu rancor parecendo blasé
(ignorando que é pura falta de educação)

Volte novamente às classes
gramaticais, é claro.

Orações coordenadas
só se subordinadas à curtição.

Compartilhe, desde que
paguem os direitos autorais.

Divague sobre o nada
mostrando ser excepcional
no começo, meio e fim.

Em suma, escreva por duas ou três horas
antes que acabe o vínculo.

Por fim, esqueça esta nossa precariedade.

“– Caramba!
Como é difícil fazer poesia”
Vão dizer os poetas.

Mas, o Poeta, mesmo,
há de se omitir sobre o tema
enquanto sonha a vida.

Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A visita

Ainda hoje vou à casa
de velhos amigos.
Quero encontrá-los sorrindo
e de abraços abertos.

Vamos rir tanto
de doer a barriga!
Conversar bastante
até alta madrugada.

Ficaremos em silêncio
durante alguns minutos.
Até que alguém dirá:
um anjo passou...

Crendices serão debatidas
e soluções para o mundo,
economia, política e poesia,
entre risos e suspiros.

Antes de terminar a visita,
um novo silêncio na garganta
poderá nos lembrar
que estará amanhecendo.

Então, verei meus olhos
mirando o futuro
destes olhos de hoje
lembrando os antigos.

E voltando para casa,
verei que as horas passaram
neste meu relógio tão pesado
e, enfim, haverá um sorriso.


Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Poeminha receita

Pegue umas palavras.
Disseque-as, uma a uma:
Eis uma poesia morta!

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A caça

Primeiramente, a caça se esconde.
Se impossível, esgueira-se.
Quase acuada, foge.
Entre raízes, o disfarce.

A caça não ataca.
Ela age no impulso da fuga
ou faz uma simulação qualquer.
Mas, não ataca.

Salta-lhe o coração,
os olhos esbugalham,
as unhas latejam,
e a respiração prende.

O que a caça realmente faz
não é fugir, nem esgueirar-se,
muito menos fingir
ou andar pela noite.

O que a caça tem não é nada,
não é instinto animal,
nem raciocínio complexo.
A caça só tem medo.

Luiz Augusto Rocha

Poema inútil

Uns grandes versos bobos!
Era só isso que fazia escrever,
Coisas bobocas, simples. Geniais?
Palavras lindamente articuladas?
Que pudessem salvar o mundo...

Como eram exageradas as palavras!
E eram complexas as construções?
Uma festa maravilhosa e rocambolesca!
Com direito a metrificação. Eu acho.
Como o bobo era eu...

O mundo não mudou pela poesia.
Acho que nem ligam mais para poesia.
Há muito trabalho para se fazer!
Coisas bem melhores a se apreciar.
Nem eu mudei pela poesia...

Abandonei a métrica.
Deixei as rimas de lado.
Intercaladas entre o desdém
e a inutilidade da procura.
E o tempo pareceu-me o mesmo...

Espero que isso não seja um achismo.

Luiz Augusto Rocha

Poema conformado

E essa coisa,
fica assim, fica assado.
A gente queima o que pode
e continua assim.

Fuma um cigarro, bebe uma cerveja,
fuma outro, bebe mais outra.
E continua nessa toada
contínua e sem graça.

Bate a tristeza,
bate a angústia,
bate na cara,
bate o telefone.

Quanto mais eu procuro
meus versos mais íntimos,
mais ao inverso caminho.
E bebe, fuma, fala... Cala.

A vida deveria vir
com o verso escrito.
Não ela toda, só uns dias.
Um verso-bula: explicativo.

No fim das contas,
é tudo igual.
Um emaranhado de palavras
severamente piegas.

Luiz Augusto Rocha

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Perguntas travadas

Será que a vida é feita
de poemas,
teoremas,
problemas?

Será que são somente
palavras,
mágoas,
estradas?

Sera que pobres rimas,
línguas,
gestos,
coisas significam?

Só entendi até hoje
um pouco,
gestos,
olhares.

não entendo nada
além,
aquém
de mim.

Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Meu relógio

Meu relógio não está no pulso,
ele bate em meu peito,
controla meu tempo.
Nada tenho a fazer.

Se é tempo de tempestade,
se é tempo de temperança,
se são tempos temperados,
não sei. Ele deve saber.

Não controlo meu tempo,
o relógio controla meu tempo.
Aliás, nem sei se ele é meu,
sei que ele está em mim.

Quando vejo as horas,
vejo que passaram os anos.
Quando teimo em ver as horas,
vejo que passou menos de um minuto.

Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 3 de abril de 2012

Revoada no tempo

As pombas do tempo
não nos dizem nada.
Não precisam dizer nada.

As pombas do tempo,
o mais alto espírito da religião,
Não dizem nada.

As pombas do tempo
não trazem paz
nem guerra.

As pombas não são do tempo,
elas veem o tempo passar.
Nós é que queremos que elas digam algo.

As pombas não são boas nem ruins,
estão em muitos lugares
e gostamos de acreditar nelas.

As pombas voam,
como este nosso tempo,
dizendo que é tempo de revoada.

Luiz Augusto Rocha, para Fernanda.

Poeminha de engolir sapos

Não gosto dos sapos.
Verrugosos e de olhos fixos...
O pior é engoli-los!

Luiz Augusto Rocha

O retrato na escrivaninha

Quando me olho no retrato,
os olhos fechados,
o perfil enquadrado
em escala de cinza,
não vejo mais
que a descontinuidade
do traço e do grafite.

É um tempo morto
escorrido na imagem.

- A esperança?

É que esses olhos
um dia despertem...


Luiz Augusto Rocha

Poeminha devedor

Contas a pagar, a acertar,
com o banco, com os santos...
Comigo.


Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Inconsequências do amor

Acredito que amei,
algumas vezes.
Amei tanto, tanto,
que me perdi
no próprio amor.

Fiquei angustiado,
estive feliz,
andei à toa
sem saber aonde ir.
Escrevi e vivi muitos clichês.

Fui bobo,
quase sempre.
fui obceno,
Ainda não sei.
Fui muitos eus...

Cada amor
era para sempre.
Todos eles findavam
antes que eu quisesse.
Então, surgia um novo eu.

Ainda me perco de amores
que me fazem feliz,
que me angustiam,
que me tornam bobo
escrevendo clichês.

A cada novo amor,
menos cabelos,
mais cabelos brancos,
tantas preocupações
e essa sensação maluca de flutuar...

Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Indefinições do amor

Ser amado,
ser bobo,
ser sisudo,
ser piegas,
ser casmurro,
ser inconveniente,
alguém para além das expectativas.

Amar,
beijar,
fazer,
receber,
compreender,
não compreender,
ir ao fundo do fundo do copo.

Penso que o amor
puro e simples
não faz nada mais
que só o amar...


Luiz Augusto Rocha

domingo, 29 de maio de 2011

Aos falsos moralistas

Não falem por mim,
Não riam do meu riso,
isso me ofende.

Baixem a voz,
deixem as facas caírem
e enxerguem a gente.

Não nos iludamos,
o pedido não será atendido,
nem negociado.

Há de ser tomado,
há de ser lutado
e assim, só assim,

uma gente diferente virá.


Luiz Augusto Rocha