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terça-feira, 16 de julho de 2013

Conversa fiada

O pouco que me contenta,
quase que me deixa louco.
Dando eco a este grito rouco,
sufoco o que me atormenta.

Digo tanto faz,
e eu mesmo não sigo.
Não vejo o perigo
que carrego em paz.
 
As maiores redondilhas,
as menores redondilhas:
nem todas as redondilhas
transformam em continente (um conjunto de ilhas).

Não tem rima alguma
que faça sentido.
Verso derretido,
palavra nenhuma (a mínima redondilha).

Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Uma cidade

plantas paus pedras planícies
pobres putas padres pastores
proprietários propriedades políticos palanques
pastos prédios placas praças
polícias pobres policiais putas
políticos padres palanques pastores
proprietários plantações propriedades planícies
palacetes prisões palafitas posseiros
paratis pitos parangas parasitas
professores profissionais passageiros poleiros
passantes pistoleiros pagantes prisioneiros
pretensões possibilidades palavras
pessoas

Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Poeminha sonoro

Versos imperfeitos
em perfeita sintonia:
pérfidos versinhos...


Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Poeminha religioso

Se isto, se aquilo...
Sê isto, sê aquilo!
Seja o que deus quiser?

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A flor no quintal

Em meio a tanta erva daninha,
nasceu uma flor no meu quintal.

Eu que levava uma vida tão bisonha,
sorri pr’aquela maria-sem-vergonha.

Mesmo sem descobrir, afinal,
que ressurgia ali uma esperança.

Ainda que pequenininha.
Ainda que tão criança.

Ela crescia naquele chão
e despertava no meu peito.

Um atropelo no coração:
E não é que este mundo ainda tem jeito!


Luiz Augusto Rocha

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Poema para vocês

Que tomam na cara,
na boca do estômago,
que não se acovardam,
que caem chutados,
levantam mais fortes,


que saem das casas,
que saem dos becos,
que invadem a vida,
que levam a vida
pra dentro de nós,


que rompem o medo,
que irrompem às ruas,
que troçam da tropa,
que gritam mais alto
e lutam, trabalham:


que mostrem ao mundo
que o mundo ainda muda!


Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Eu e o espelho

Uma boca sem sorriso,
uns olhos sem lágrimas,
o chão sem terra.
 
Quando me peguei
olhando para o espelho,
vi uns pedaços de mim.
 
Por mais que tentasse
deter os olhos naquilo,
não senti muita coisa.
 
Fitei um tempo a minha imagem,
não posso me chamar de Dorian Gray.
Envelheci uns dias mais outros menos...
 
Desta vez não consegui sorrir,
muito menos chorar pelo que vi.
A consciência disso tirou meu chão.

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Juventude transviada

No boteco da esquina,
peço pro garçom:

– Vê mais uma dose
de Boca do Inferno...

Que essa molecada pudica
tá um porre!


Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Mediocridade

não aceitamos nossa mediocridade financeira
quando aceitamos

não aceitamos nossa mediocridade intelectual
quando aceitamos

não aceitamos nossa mediocridade emocional
quando aceitamos

já é tarde demais
é preciso levantar às seis


Luiz Augusto Rocha

terça-feira, 21 de maio de 2013

Doze versos latentes

Porque é pungente.
Porque é um acidente.
Porque reincidente.
Porque usa detergente
e creme contra ressecamento.
 
É tanto creme, tanto cosmético,
tanto comedimento,
tanta preocupação com o ressecamento,
tão preocupados com a saúde,
porque precisamos viver intensamente... E na medida.
 
O que manda
é o medo de perder o que temos
e a ilusão.


Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Meu poeminha

Ele era tão pequeno,
que mal cabia
no papel.

Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Poeminha luminoso

Eu queria soltar um milhão de vaga-lumes
na cidade de São Paulo!
Pena que eles não acendem perto dos postes...

Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Nada novo

Nada tenho de novo.
É tudo de novo e de novo.
Nem mesmo o ano novo
é tão novo assim...
Todo ano se repete.

Nada tenho de meu,
além de velhas ideias
roubadas dos outros,
já velhas e puídas
guardadas cá dentro.

Nem tenho os outros,
que passam por mim,
que contam suas ideias
de novo, as velhas ideias
repetidas em novas bocas.

Não tenho quase nada,
a bem da verdade.
Só me resta a esperança
de que este poema
me alegre de novo.

Luiz Augusto Rocha

sábado, 6 de abril de 2013

Gente-terra

Terra batida, pisada,
agredida, arrasada.
Terra pobre, preta,
fodida, ensanguentada.

Terra que pede água,
que se plante o arroz e feijão.
Terra que só tem a si
e uma esperança infindável.

Terra de que fazemos parte
sem darmos conta disso.
Terra que carrega sonhos
para além dos mesquinhos.

Terra que gera vida,
apesar de tudo!


Luiz Augusto Rocha

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Um clichê

Escrever é um ato de angústia,
ou melhor, motivado pela angústia.
De que adianta escrever, se tudo
é tão bobo, tão feliz?

A felicidade não motiva ninguém
a sair da inércia de ser o mesmo.
A plenitude é um não-estado
em que deixamos de existir.

Por mais bobo e feliz que seja o verso,
ele é fruto de uma angústia imensa.
Só que ele transforma o mundo
e me torna mais humano.

Luiz Augusto Rocha

Conselho de vó

Há muito tempo
minha avó já dizia:
"Menas" gramática
e mais poesia!
Luiz Augusto Rocha

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Bilhete de Ano Novo

Ah, Ano Velho,
perdão pelo que fizemos,
pelo que costuramos,
pelo tudo e o nada.

Velho camarada,
cá nos despedimos...
Mas não se preocupe,
de vez em quando irei vê-lo.

Sabe, meu amigo,
é que amanhã já tenho
um encontro marcado
com a minha esperança.

Luiz Augusto Rocha

sábado, 15 de dezembro de 2012

Poeminha geométrico

São tantos lados tão vastos,
que um polígono aberto
era tão pouco.

Luiz Augusto Rocha


Poeminha sem sentido

Ando tão bobo,
que, quando paro,
me falta chão...

Luiz Augusto Rocha

sábado, 1 de dezembro de 2012

Um pássaro

Voa tão, tão alto,
que, ao olhar o vasto,
dá uma preguiça de voltar.

Quando desce,
cansado e sozinho,
pousa num poema.

Repousa nessa poesia,
nos versos breves
descansa.

Equilibrado na palavra,
olha de novo o céu
e sai voando na vastidão...

Luiz Augusto Rocha